Artigo 

O CINEMA SERVE AO PROFESSOR DE

HISTÓRIA?

Por * Dr. Alfredo Boulos Júnior 

Sim, certamente, mas de uma maneira muito peculiar. Daí a necessidade de tomarmos alguns cuidados ao utilizá-lo.


Primeiramente, é preciso levar em conta que toda imagem cinematográfica é testemunho de uma presença: a da câmera e a da equipe que realizou a filmagem. O que vemos na tela é um registro fotomecânico, reproduzido por um projetor. Essa evidência geralmente não é percebida pelo espectador comum, ou simplesmente não interessa a ele, que busca no filme diversão e emoção por algumas horas ou minutos. Já o professor de História deve ver o mesmo filme com outros olhos, se o que pretende é tratar o cinema como uma das fontes para o seu trabalho de construção/ reconstrução da História.


Todo filme, seja ficcional ou documental, é uma fonte a ser considerada pelo historiador, pois o que se vê na tela é um tipo de registro do que aconteceu em algum lugar, em algum momento. O filme editado expressa a visão de um indivíduo ou grupo que quer nos convencer da versão que arrumou para mostrar na tela (ou no vídeo).


Isso é ruim? De forma alguma. A consciência disso é que permite ao professor desvelar o que pode estar oculto ou subentendido. Ao fazer uso do filme ficcional é preciso lembrar ao aluno que se está diante de uma versão, de uma representação, e não dos fatos históricos tal como eles ocorreram.


Mas nem por isso a ficção “de época” deve ser tratada como uma mentira. Ela é uma narrativa que procura transformar em imagens verossímeis o acontecido ou imaginar como pode ter ocorrido, servindo-se dos meios disponíveis na ocasião em que o filme foi realizado. O que é uma verdade acabada do ponto de vista histórico?


Geralmente, o filme histórico revela mais sobre a época em que foi feito do que sobre a época que pretendeu retratar. Um exemplo: Danton, o processo da Revolução (1982), de
Andrzej Wajda, é um filme sobre a Revolução Francesa de 1789, mas a obra que Wajda realiza é mais uma crítica ao autoritarismo e ao clima de medo vivido na Polônia dos anos de 1980 (lugar e tempo em que o diretor viveu) do que uma narrativa sobre o episódio vivido pelos franceses em 1789 (época em que o filme foi ambientado).


Dessa forma, o uso de filmes na sala de aula exige muitas horas de preparo. Decidindo-se por um filme, o professor deve assisti-lo pelo menos duas vezes e marcar as principais sequências, cenas e planos, para saber repeti-los e comentá-los no momento adequado da aula. A clareza do professor sobre a época em que o filme foi realizado é fundamental, os objetivos dos responsáveis por sua realização, sua inserção como produto de cultura entre outros do mesmo período. Ao destacar esses elementos, o professor está estimulando o aluno a ver os filmes com outros olhos. Além disso, o educador deve se libertar de um costume muito presente na atividade didática que é o de tratar o romance, a poesia, a pintura e, mesmo o cinema, como mero suporte de um conteúdo. Caso contrário, o espectador ficará preso apenas ao enredo e não prestará atenção à forma como este lhe foi apresentado.


Toda a forma de arte possui procedimentos e linguagem específicos. Por isso, o educador que faz uso do cinema, por exemplo, deve levar em conta todos esses aspectos. Assim, o cinema pode ser aproveitado duplamente: como arte espetacular e como fonte para o conhecimento da História.